sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

As aparições de Melquíades

Tempo – Alguns pares de anos atrás
Local – Arredores do bairro Santa Angelina, Araraquara


     A casa era velha e tinha um quintal imenso, com calçamento mal feito na parte da frente e terra na parte do fundo, onde era cultivado um pequeno pomar. Havia algo de mal assombrado ali. O quarto em que Veri dormia fora construído depois que a casa já estava pronta e ficava anexo aos outros cômodos, tipo um puxadinho de teto baixo.
    O lugar estava sempre abafado e quente, mas as paredes haviam sido criativamente pintadas por Veri e Dani, seu amigo de faculdade e de outras vidas. As assombrações raramente passavam por aquele quarto, pois a pintura alegre e a fé emocionante e ingênua da ocupante do cômodo as afastava.
 
   Farta das leituras acadêmicas, certo dia Veri vasculha a prateleira de madeira cheia de livros e escolhe aquele que sempre lhe chamou a atenção. Ela tem a impressão de já tê-lo lido em algum sonho. Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez. Lê com a fome dos que procuram sem cessar. Se encanta especialmente pela personagem Úrsula, mas há outra figura que lhe intriga e insiste em visitá-la em sonhos: o cigano Melquíades. A partir do momento em que Veri finda a leitura do livro, o espírito daquele personagem passa a ser a única assombração que ousa frequentar todos os dias o quarto colorido, ora a velar seus sonhos, ora a perturbá-la. 

 * * * 

Tempo – Fim de 2010 ou começo de 2011 
Local – MSN 

FÁBIO BARBO – Então, antes de fazer a Infinita América I tomei umas aulas de espanhol com um argentino indicado pelo Marcel, o Fernando. 
veridiana f. – legal :) 
FÁBIO BARBO – Ele é gente fina...como curto futebol argentino e coisas da América do Sul, a aula flui bem...trocamos ideia de várias coisas...ele me empresta filmes em espanhol e livros. Aliás, to lendo um que ele me emprestou: Crônica de una muerte anunciada, do García Márquez. 
veridiana f. – Ah, do Gabo! Depois leia o 'crássico': Cem anos de solidão...se quiser eu te empresto. 

* * *

Tempo – Fim de 2011 
Local – Casa da Veri, Assis

“Porra, nunca pensei que fosse gostar tanto do Cem anos, Veri. O tal do cigano Melquíades me fascina. Às vezes penso que ele é imortal e que sua atuação extrapola o mundo da ficção. Sei lá, olho pros lugares e sinto a presença do danado.”


* * *

Tempo – 30/04/2012 a 01/05/2012 
Local – Terminal Rodoviário do Tietê, São Paulo; aeroporto de Guarulhos


     Depois de ajeitarmos os mochilões no porta-malas do Fox hidramático, Seu Francisco passou para o banco de trás ao meu lado deixando o volante aos cuidados de Veri. Mãe e filha na frente, os homens atrás. Tocava um som baixinho no rádio do carro e as ocupantes dos bancos da frente discutiam se a música era em inglês ou francês. Atrás, seguíamos em silêncio. Não me despedi direito dos meus pais, eu pensava, e tentava pensar na longa jornada que estávamos iniciando. 

    Chovia, mas isso não fez com que o trajeto da minha casa à rodoviária se prolongasse acima da normalidade. Quinze minutinhos e lá estávamos nós, tirando a bagagem do porta-malas, nos despedindo de Célia e Francisco e descendo a rampa que dá acesso às plataformas de embarque do escuro Terminal Rodoviário de Araraquara. A espera pelo ônibus foi curta e assim que foi dada a partida e as rodas começaram a se movimentar apertamos o play dos nossos respectivos aparelhos sonoros pra ouvir Gustavo Cerati cantando Fuerza Natural. Só pra começar a viagem com o pé direito. 
    

Gata na rodoviária. 


 Pronto!


Bagagem


    
     Chegamos ao Terminal Tietê, em São Paulo, antes do tédio nos alcançar. Rodamos um pouco pra passar o tempo, as mochilas pesando nas costas. Avistamos de longe um guichê da Eucatur e fomos até ele na esperança de encontrar alguém que pudesse nos dar mais informações sobre linha que saí de Puerto la Cruz, na Venezuela, com destino a Manaus e Boa Vista, mas não havia ninguém ali. O jeito foi sentar e esperar. Tínhamos comprado antecipadamente a passagem do ônibus da Pássaro Marrom que sai do Tietê pro aeroporto de Guarulhos. Partiríamos às 23h30, mas resolvemos mudar pras 03h30 na intenção de dividir a espera entre a rodoviária e o aeroporto. O sono foi inevitável. Dormimos encostados um no outro, cercados por gente de todo tipo. 
      Acordei com frio e com a impressão de que não tinha dormido. Veri acordou quase ao mesmo tempo que eu. Ela estava sorridente e se lembrava exatamente do que havia sonhado e eu, que quase nunca me lembro dos meus sonhos, também. E qual não foi nossa surpresa ao descobrirmos que havíamos sonhado exatamente a mesma coisa! Pra mim, aquilo não parecia ser simplesmente um sonho. O simpático Melquíades aparecera de novo em nosso subconsciente. 
      Sentado num descampado no meio do nada, sob um céu azul de doer os olhos, o velho cigano me chamava alto pelo nome. “Nunca é tarde”, ele dizia. “A chave pra encontrar Macondo não está em parte alguma da nossa quente e colorida Colômbia, nem na imaginação da moça que dormia no quente e colorido quarto da velha casa abençoada, mas sob as dunas de Coro, na Venezuela. E a América do Sul tem um dono, e está esperando ser encontrada por ele. Pise o chão dos nossos países com humildade, filho. Depois de pisar todos eles você vai desvendar o mistério”. Nesse instante a chuva tomou conta do sonho inteiro e depois surgiu um Pacaembu enorme, lotado, tomado por uma bandeira de tamanho sem precedentes que dizia: Vai Corinthians! 



                                                                                 * * * 

      É inegável que a aparição de Melquíades deu um tom de magia a nossa viagem. Em Guarulhos, enquanto esperava o avião, eu pensava: “que que esse cara quis dizer?”. Fiquei com medo do avião cair. Mas não caiu. E pudemos chegar em Lima com tranquilidade depois de ver o lago Titicaca do alto e de cochilar um pouquinho nas alturas, sonhando com conquista, amor e liberdade.

Tava frio pra tudo isso? 



Bom humor

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A chuvosa tarde da partida

     Não lembro em que ano foi, muito menos em que dia, mas deve ter sido no começo ou no meio de algum dezembro especialmente chuvoso. Chovia muito, sem parar, e eu estava perdido das ideias olhando as árvores encolhidas e encharcadas do pasto pela janela da sala, pensando no que faria das férias assim que a água parasse de cair. Precisava de alguma aventura nova. Andar pelo ferro-velho pra roubar cobre ou alumínio e depois vender era muito arriscado. Escalar o buraco da linha do trem já tinha perdido a graça, e meus primos não estavam mais na cidade. Sem eles não seria a mesma coisa. Acho que eu queria mesmo uma aventura imaginada, daquelas que a gente 'vive' quando lê um livro arrebatador.   

   Na primeira pausa da chuva, peguei a bicicleta no quartinho e me mandei pro SESI. Contrariando as ordens do guardinha Juvenal, prendi a bike na grade do portão da escola e entrei sorrateiramente na biblioteca. Dona Iara estava lá, na postura de sempre, um pouco atabalhoada, carimbando e escrevendo nuns papéis atrás do balcão. Dei um 'oi' tímido e mergulhei nas prateleiras que eu tanto conhecia e que tanto me fascinavam. Quantas vezes sonhei que estava sozinho naquela biblioteca, ou roubando livros pra formar um belo e grande acervo particular, ou fazendo da biblioteca uma espécie de portal, a partir do qual eu poderia ir pra qualquer lugar e viver qualquer história fantástica. 

   Olhei, olhei, olhei e acabei escolhendo uma vez mais um livro de Francisco Marins: 'Verde era o coração da montanha'. Voltei pra casa rápido, protegendo o livro debaixo da camiseta, pois a chuva estava voltando. Guardei a bicicleta no quartinho e deitei no tapete verde da sala pra começar a leitura. E li de uma tacada só, o barulho da chuva de trilha sonora, sem medo de fazer a viagem e sem pena de vê-la terminar tão rapidamente, numa tarde.

* * *

  Sim, sou um sujeito saudosista. Anos depois de ter vivido aquela (e muitas outras) tarde mística com os olhos pregados nas páginas de um livro, resolvi comprar vários títulos que havia lido na infância e adolescência e montar uma prateleira só de obras infanto-juvenis. Confesso que reli nem metade do que adquiri, mas os livros estão ali, à minha disposição, e quando a chuva e as tardes nostálgicas de certos verões solicitam, lá vou eu de novo sonhar. 

   A tarde da partida pra Infinita América III ocorreu num fim de abril com cara de dezembro ou janeiro. Uma chuva anacrônica insistia em molhar o chão que só queria respirar aridez. A mochila estava pronta. A pochete com passaporte, caderninho de anotações e um pouco de dinheiro também. A mesa do café da tarde estava posta, com bolo, pão e café. Meu pai estava ali, num raro dia de paz, e sentou-se à mesa para comer. Sentei-me também e pudemos falar do passado, do tempo em que ele ainda trabalhava, de certas dificuldades e facilidades que passou, de como os tempos mudaram e de como os filhos se desvencilham (ou tentam se desvencilhar) da sombra dos pais. Foi um bom café da tarde.

   Emocionado e com sede de alguma aventura imaginária levei a mão até a prateleira dos infanto-juvenis e por sorte, acaso ou destino encontrei o 'Verde era o coração da montanha' ali, pedindo pra ser folheado. Tirei a mochila e a pochete de cima da cama e deitei de barriga pra cima, com dois travesseiros dobrados sustentando a cabeça. E mergulhei no sonho uma vez mais, só pra esperar com qualidade a hora da partida. A campainha tocou pra me acordar. Era Veri com seus pais lá fora a me esperar. Dali pra rodoviária, pra outro sonho, pra outra aventura. América, estamos indo te libertar!



sábado, 1 de dezembro de 2012

Algo mais sobre o roteiro

   A Companhia das Letras promoveu uma espécie de entrevista a distância que permitiu aos leitores e fãs do jovem escritor Daniel Galera fazerem perguntas ao autor. Segue link pra quem se interessar: http://www.blogdacompanhia.com.br/tag/daniel-galera/. Um dos "entrevistadores" pergunta em que momento um escritor para de mexer no livro em que está trabalhando e decide que a obra está pronta e não deve mais ser mudada. Na resposta, Galera diz que para ele há dois momentos cruciais na finalização de um livro: o primeiro momento é quando ele decide que a história deve sair da imaginação e começar a ir pro papel; o segundo é quando, já estafado de mexer e remexer na obra, ele decide, um pouco motivado pelo feeling de que o livro já está bom o suficiente e um pouco motivado pelo cansaço, que já não dá mais pra mudar nada ali. Ponto final.
     Hoje, dias após assistir a dita entrevista à distância em meu sujo e empoeirado notebook, aproveitando a internet rápida de um bom hotel, penso algumas coisas sobre livros, viagens, roteiros e internet. Quando é que um viajante independente decide que determinado roteiro está pronto e não deve mais ser mudado? Quando é que um mochileiro decide que certa viagem deve ser mesmo contada via internet? O que motiva essa contação?
    São perguntas pessoais e refletir honestamente sobre algumas delas pode ser doloroso. Por ora, pensarei sobre a questão do roteiro.

  A partir de que momento do planejamento de uma viagem independente se pode considerar o roteiro pronto, não mais mexível? Como saber se esse momento realmente chegou?

    No caso dessa viagem, cujo fechamento do roteiro foi especialmente difícil, percebemos que não chegaria o momento em que sentiríamos segurança para olhar o itinerário por completo e dizer: pronto. Então, resolvemos ir por partes. O primeiro objetivo foi definir Peru e Equador. Quanto mais pesquisávamos, mais em dúvida ficávamos, porque não basta decidir ir pra cidade X, dali pra Y e depois pra Z. É necessário saber se há transporte de um lugar pro outro, em que dias da semana esse transporte está disponível, se vale a pena, de repente, ficar um dia a mais ou um dia a menos num lugar pra se adequar aos dias e horários dos ônibus, trens, etc.
    Sem internet em casa, pão duro que sou, tive que usar de locais onde há internet grátis, como parques públicos, shoppings, hotéis, etc. Destaco o Parque do Curupira, o Novo Shopping e a Praça dos Expedicionários, em Ribeirão Preto. Lembro que passei manhãs e manhãs pesquisando muitas vezes sem chegar à conclusão alguma. Mas lembro de uma manhã especial, de céu azul e vento forte em que sentei num banco da Praça dos Expedicionários, ao lado de um catador de papelão e seu cachorro selvagem e sujo, para pesquisar. Decidi que aquele era o dia. E foi. Vendo fotos de Trujillo (Peru) e lendo sobre o local não tive dúvidas de que ali deveria ser a segunda parada da viagem, depois de Lima. Havia transporte fácil de uma cidade a outra, em vários dias da semana. Consegui fechar também a passagem do Peru pro Equador (não havia ônibus todos os dias de um país para outro, mas o dia em que havia batia com o dia que precisávamos). Fechar a rota pelo Equador foi fácil. E foi fácil também concluir que a Veri ia amar Cuenca. E ela realmente amou.
     O sol já ia alto e o trabalho me chamava, mas fiquei na praça até o limite do horário e fechei também toda nossa passagem pela Colômbia. Pesquisar sobre Medellín foi especial. Trocando e-mails com a Veri, sonhamos juntos com almoços no Cerro Nutibara, passeios no Metrocable, caminhadas pela parte amuralhada de Cartagena, cafés em lugares especiais, conversas francas e entusiasmadas com taxistas e pedestres...
      Nesse dia tive aquela sensação de 'agora vai', o feeling de que pelo menos até aquela parte o roteiro estava pronto. A sensação de cansaço veio semanas depois, quando não conseguíamos de jeito nenhum ter certeza sobre os horários de transporte na Venezuela. Foi quando olhamos um pro outro e dissemos: "vai assim mesmo; se der alguma zica a gente improvisa, afinal, essa é ou não é uma viagem de aventura?"

domingo, 25 de novembro de 2012

A ingrata tarefa de montar o roteiro

    Nunca canso de falar sobre quão complicado é montar um roteiro de viagem. Mesmo tendo definido de antemão por quais países iríamos passar, foi muito difícil conseguirmos fechar um itinerário que nos parecesse pronto, coeso e seguro.

     Primeira parte- Peru e Equador

   Apesar de já ter passado pelo sul do Peru na Infinita América II, faltava conhecer a capital daquele país. Então, decidimos iniciar a viagem em Lima, indo pra lá de avião. Dali iríamos para alguma cidade litorânea do norte peruano para depois entrarmos no Equador e seguir em frente. Surgiu aí a primeira encruzilhada: pra qual cidade do norte deveríamos ir antes de adentrarmo o Equador? Ficamos divididos entre Chiclayo e Trujillo, mas escolhemos a segunda após vermos e revermos fotos dos locais.
    Outra dificuldade foi definir se passaríamos por duas ou três cidades do Equador. E como a tendência é sempre conhecer a  maior quantidade possível de lugares, decidimos passar pelas três. Então, de Trujillo partiríamos para Guayaquil, depois para Cuenca e enfim Quito.

    Segunda parte – Colômbia

   Na Colômbia, desde o princípio do planejamento, sabíamos que passaríamos obrigatoriamente por Bogotá e Cartagena. Mas pelo menos outras duas cidades não poderiam ficar de fora: Cali e Medellín. Há um ônibus que sai de Lima, passa por várias locais e vai até Cali. Então, resolvemos que daria pra encaixar o roteiro assim: de Quito, embarcando no ônibus mencionado, iríamos para Cali, dali, em outro ônibus, para Bogotá, depois Medellín e finalmente Cartagena. Encaixamos as quatro cidades. Mas havia outros lugares interessantes que se eu pudesse não deixaria de fora: Santa Marta, Barranquilla, alguma cidade banhada pelo Pacífico, etc.

     Terceira parte – Venezuela e Norte do Brasil

     Encontramos muitas dificuldades para pesquisar sobre transportes na Venezuela. Verificamos que para sair da Colômbia de ônibus para o país de Hugo Chávez o jeito mais fácil seria indo para Maracaibo. Então, decidimos que após Cartagena partiríamos para aquela cidade, que seria nossa porta de entrada para a Venezuela. A partir dali haviam várias opções: Mérida, Morrocoy, Punto Fijo, Coro, Caracas, Islas de Margarita, etc. Decidimos, após muito pensar e repensar, ir de Maracaibo a Coro, de microônibus, depois para Caracas, de ônibus, dali para as Islas de Margarita, de avião, e finalmente, de balsa, para Puerto La Cruz. De Puerto La Cruz há um ônibus que parte direto para Boa Vista. Como nossa ideia era percorrer por terra firme a maior parte dos trechos, resolvemos encarar e aproveitar pra conhecer rapidamente a capital de Roraima. E dali, finalmente, partiríamos para Manaus, novamente de ônibus, e depois para Ribeirão Preto, de avião.

       No fim das contas nem tudo saiu como havíamos previsto e planejado, mas o resumo do roteiro original, com o qual saímos de Araraquara antes de iniciar a viagem, segue abaixo:

30/04/2012 - Araraquara/São Paulo/Guarulhos
01/05/2012 - Lima
02/05/2012 - Lima
03/05/2012 - Lima
04/05/2012 - Lima/Trujillo
05/05/2012 - Trujillo
06/05/2012 - Trujillo/Guayaquil
07/05/2012 - Guayaquil/Cuenca
08/05/2012 - Cuenca
09/05/2012 - Cuenca/Quito
10/05/2012 - Quito
11/05/2012 - Quito
12/05/2012 - Quito/Cali
13/05/2012 - Cali/Bogotá
14/05/2012 - Bogotá
15/05/2012 - Bogotá
16/05/2012 - Bogotá/Medellín
17/05/2012 - Medellín
18/05/2012 - Cartagena
19/05/2012 - Cartagena
20/05/2012 - Cartagena
21/05/2012 - Maracaibo
22/05/2012 - Coro
23/05/2012 - Coro
24/05/2012 - Caracas
25/05/2012 - Caracas
26/05/2012 - Margarita
27/05/2012 - Margarita
28/05/2012 - Puerto La Cruz
29/05/2012 - Boa Vista/Manaus
30/05/2012 - Manaus
31/05/2012 - Manaus



quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Um argumento necessário

    Era pra ser só um café da tarde com a pessoa amada, mas foi o começo da terceira parte daquele que na minha mente é um pretensioso projeto de desbravamento e libertação da América do Sul luso-espanhola. 

* * *

     Pra você que ainda não sabe, no já remoto maio de 2010 eu e meu amigo Marcel saímos acelerados numa pick up Corsa a andar pelo sul do Brasil, Paraguai, Argentina, Chile e Uruguai. Passamos 29 dias nessa andança, conhecendo novas paragens, sotaques, pessoas. Conhecendo a nós mesmos. Trouxemos na bagagem milhares de fotos, regalos, lembranças, sonhos,  e sapatos sujos com poeira de cada parte por onde passamos. Ao pisarmos de volta no nosso Brasil, misturando terra estrangeira com terra daqui, foi impossível não reforçar a miscigenação e não afirmar com um orgulho obscuro: meu país é a América do Sul, sim senhor! 
  Essa foi a primeira parte do projeto Infinita América. Veja detalhes no blog http://infinitaamerica.blogspot.com.br/.


   A Infinita América - parte dois, segunda etapa do projeto, pode ser conhecida em detalhes no blog http://infinitaamerica-partedois.blogspot.com.br/. Será fácil perceber o tamanho da ficção em que me meti e como a contação dessa viagem fala muito mais de descobrimento interno que de externo. Há muita coisa mal escrita, é claro, mas há fotos e descrições  para quem está aqui apenas para conhecer lugares. Há pedaços de Bolívia, Peru, norte da Argentina, Chile e Brasil. Pedaços percorridos por mim numa viagem solitária de vinte e poucos dias em maio de 2011, a bordo de ônibus limpos e embarreados, trens de baixa velocidade, vans de nacionalidades variadas e pick ups que andam na areia e no sal.

* * *

      Mas, voltando ao café com a pessoa amada, conta a lenda da minha memória que numa daquelas tardes de fim de ano inesquecíveis de Assis, num dia em que o sol e o vento penetravam por ângulos únicos as janelas e portas da pequena casa localizada ao lado de um terreno baldio, Veridiana me ofereceu um café de máquina. Estávamos esparramados no chão da sala, encostando o corpo no piso frio para aliviar o calor, mas ainda assim ela me ofereceu um café. Eu aceitei e de uma tacada só disse: "Falta passar por Equador, Colômbia e Venezuela". "Ahnnn?" ela respondeu. "Pra completar a Infinita América faltam esses países. Já passei por Paraguai, Argentina, Chile, Uruguai, Bolívia e Peru. Faltam só os três lugares que falei pra completar minhas andanças pelos países de língua espanhola da América do Sul. São os times desses países (e alguns convidados do México) que jogam a Taça Libertadores da América". Veri me estendeu o copo de café quentinho dizendo pra eu por mais açúcar, se quisesse, e acrescentou: "Ahn, e o Corinthians vai jogar a Libertadores esse ano, não vai? Já pensou assistir um jogo num desses lugares. Ia ser demais! Vamos fazer essa viagem juntos, Fábio?".

     Daquele dia de novembro ou dezembro em diante, só fizemos falar e planejar a tal viagem. A Infinita América - parte três que aqui vos apresento com certa dose de orgulho e vaidade, mas com muito mais humildade que das outras vezes, porque dessa vez fui ao lado de uma mulher e as mulheres estão aqui para nos ensinar sobretudo a humildade. 
   
    Assim, em outro maio que já vai ficando lejos na minha memória, lá fui eu outra vez pelas terras da América do Sul. Para completar meu sonho e meu projeto. E por acreditar que só depois de eu ter pisado descalço o chão dos 10 países desse continente, que faço questão de chamar de tão meu, o Sport Club Corinthians Paulista do meu coração poderia enfim erguer a taça do lugar que nos pertence e gritar alto: estamos libertos! E , antecipando o final da saga, foi assim que tudo aconteceu: a Taça Libertadores da América é nossa!



Infinita América - parte um: maio de 2010.
Infinita América - parte dois: maio de 2011.
Infinita América - parte três: maio de 2012.

Três maios pra ficar no coração!