Local – Arredores do bairro Santa Angelina, Araraquara
A casa era velha e tinha um quintal imenso, com calçamento mal feito na parte da frente e terra na parte do fundo, onde era cultivado um pequeno pomar. Havia algo de mal assombrado ali. O quarto em que Veri dormia fora construído depois que a casa já estava pronta e ficava anexo aos outros cômodos, tipo um puxadinho de teto baixo.
O lugar estava sempre abafado e quente, mas as paredes haviam sido criativamente pintadas por Veri e Dani, seu amigo de faculdade e de outras vidas. As assombrações raramente passavam por aquele quarto, pois a pintura alegre e a fé emocionante e ingênua da ocupante do cômodo as afastava.
Farta das leituras acadêmicas, certo dia Veri vasculha a prateleira de madeira cheia de livros e escolhe aquele que sempre lhe chamou a atenção. Ela tem a impressão de já tê-lo lido em algum sonho. Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez. Lê com a fome dos que procuram sem cessar. Se encanta especialmente pela personagem Úrsula, mas há outra figura que lhe intriga e insiste em visitá-la em sonhos: o cigano Melquíades. A partir do momento em que Veri finda a leitura do livro, o espírito daquele personagem passa a ser a única assombração que ousa frequentar todos os dias o quarto colorido, ora a velar seus sonhos, ora a perturbá-la.
O lugar estava sempre abafado e quente, mas as paredes haviam sido criativamente pintadas por Veri e Dani, seu amigo de faculdade e de outras vidas. As assombrações raramente passavam por aquele quarto, pois a pintura alegre e a fé emocionante e ingênua da ocupante do cômodo as afastava.
Farta das leituras acadêmicas, certo dia Veri vasculha a prateleira de madeira cheia de livros e escolhe aquele que sempre lhe chamou a atenção. Ela tem a impressão de já tê-lo lido em algum sonho. Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez. Lê com a fome dos que procuram sem cessar. Se encanta especialmente pela personagem Úrsula, mas há outra figura que lhe intriga e insiste em visitá-la em sonhos: o cigano Melquíades. A partir do momento em que Veri finda a leitura do livro, o espírito daquele personagem passa a ser a única assombração que ousa frequentar todos os dias o quarto colorido, ora a velar seus sonhos, ora a perturbá-la.
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Tempo – Fim de 2010 ou começo de 2011
Local – MSN
FÁBIO BARBO – Então, antes de fazer a Infinita América I tomei umas aulas de espanhol com um argentino indicado pelo Marcel, o Fernando.
veridiana f. – legal :)
FÁBIO BARBO – Ele é gente fina...como curto futebol argentino e coisas da América do Sul, a aula flui bem...trocamos ideia de várias coisas...ele me empresta filmes em espanhol e livros. Aliás, to lendo um que ele me emprestou: Crônica de una muerte anunciada, do García Márquez.
veridiana f. – Ah, do Gabo! Depois leia o 'crássico': Cem anos de solidão...se quiser eu te empresto.
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Tempo – Fim de 2011
Local – Casa da Veri, Assis
“Porra, nunca pensei que fosse gostar tanto do Cem anos, Veri. O tal do cigano Melquíades me fascina. Às vezes penso que ele é imortal e que sua atuação extrapola o mundo da ficção. Sei lá, olho pros lugares e sinto a presença do danado.”
Depois de ajeitarmos os mochilões no porta-malas do Fox hidramático, Seu Francisco passou para o banco de trás ao meu lado deixando o volante aos cuidados de Veri. Mãe e filha na frente, os homens atrás. Tocava um som baixinho no rádio do carro e as ocupantes dos bancos da frente discutiam se a música era em inglês ou francês. Atrás, seguíamos em silêncio. Não me despedi direito dos meus pais, eu pensava, e tentava pensar na longa jornada que estávamos iniciando.
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Tempo – 30/04/2012 a 01/05/2012
Local – Terminal Rodoviário do Tietê, São Paulo; aeroporto de Guarulhos
Depois de ajeitarmos os mochilões no porta-malas do Fox hidramático, Seu Francisco passou para o banco de trás ao meu lado deixando o volante aos cuidados de Veri. Mãe e filha na frente, os homens atrás. Tocava um som baixinho no rádio do carro e as ocupantes dos bancos da frente discutiam se a música era em inglês ou francês. Atrás, seguíamos em silêncio. Não me despedi direito dos meus pais, eu pensava, e tentava pensar na longa jornada que estávamos iniciando.
Chovia, mas isso não fez com que o trajeto da minha casa à rodoviária se prolongasse acima da normalidade. Quinze minutinhos e lá estávamos nós, tirando a bagagem do porta-malas, nos despedindo de Célia e Francisco e descendo a rampa que dá acesso às plataformas de embarque do escuro Terminal Rodoviário de Araraquara. A espera pelo ônibus foi curta e assim que foi dada a partida e as rodas começaram a se movimentar apertamos o play dos nossos respectivos aparelhos sonoros pra ouvir Gustavo Cerati cantando Fuerza Natural. Só pra começar a viagem com o pé direito.
Gata na rodoviária.
Pronto!
Bagagem
Chegamos ao Terminal Tietê, em São Paulo, antes do tédio nos alcançar. Rodamos um pouco pra passar o tempo, as mochilas pesando nas costas. Avistamos de longe um guichê da Eucatur e fomos até ele na esperança de encontrar alguém que pudesse nos dar mais informações sobre linha que saí de Puerto la Cruz, na Venezuela, com destino a Manaus e Boa Vista, mas não havia ninguém ali. O jeito foi sentar e esperar. Tínhamos comprado antecipadamente a passagem do ônibus da Pássaro Marrom que sai do Tietê pro aeroporto de Guarulhos. Partiríamos às 23h30, mas resolvemos mudar pras 03h30 na intenção de dividir a espera entre a rodoviária e o aeroporto. O sono foi inevitável. Dormimos encostados um no outro, cercados por gente de todo tipo.
Acordei com frio e com a impressão de que não tinha dormido. Veri acordou quase ao mesmo tempo que eu. Ela estava sorridente e se lembrava exatamente do que havia sonhado e eu, que quase nunca me lembro dos meus sonhos, também. E qual não foi nossa surpresa ao descobrirmos que havíamos sonhado exatamente a mesma coisa! Pra mim, aquilo não parecia ser simplesmente um sonho. O simpático Melquíades aparecera de novo em nosso subconsciente.
Sentado num descampado no meio do nada, sob um céu azul de doer os olhos, o velho cigano me chamava alto pelo nome. “Nunca é tarde”, ele dizia. “A chave pra encontrar Macondo não está em parte alguma da nossa quente e colorida Colômbia, nem na imaginação da moça que dormia no quente e colorido quarto da velha casa abençoada, mas sob as dunas de Coro, na Venezuela. E a América do Sul tem um dono, e está esperando ser encontrada por ele. Pise o chão dos nossos países com humildade, filho. Depois de pisar todos eles você vai desvendar o mistério”. Nesse instante a chuva tomou conta do sonho inteiro e depois surgiu um Pacaembu enorme, lotado, tomado por uma bandeira de tamanho sem precedentes que dizia: Vai Corinthians!
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É inegável que a aparição de Melquíades deu um tom de magia a nossa viagem. Em Guarulhos, enquanto esperava o avião, eu pensava: “que que esse cara quis dizer?”. Fiquei com medo do avião cair. Mas não caiu. E pudemos chegar em Lima com tranquilidade depois de ver o lago Titicaca do alto e de cochilar um pouquinho nas alturas, sonhando com conquista, amor e liberdade.
Tava frio pra tudo isso?
Bom humor

