Não lembro em que ano foi, muito menos em que dia, mas deve ter sido no começo ou no meio de algum dezembro especialmente chuvoso. Chovia muito, sem parar, e eu estava perdido das ideias olhando as árvores encolhidas e encharcadas do pasto pela janela da sala, pensando no que faria das férias assim que a água parasse de cair. Precisava de alguma aventura nova. Andar pelo ferro-velho pra roubar cobre ou alumínio e depois vender era muito arriscado. Escalar o buraco da linha do trem já tinha perdido a graça, e meus primos não estavam mais na cidade. Sem eles não seria a mesma coisa. Acho que eu queria mesmo uma aventura imaginada, daquelas que a gente 'vive' quando lê um livro arrebatador.
Na primeira pausa da chuva, peguei a bicicleta no quartinho e me mandei pro SESI. Contrariando as ordens do guardinha Juvenal, prendi a bike na grade do portão da escola e entrei sorrateiramente na biblioteca. Dona Iara estava lá, na postura de sempre, um pouco atabalhoada, carimbando e escrevendo nuns papéis atrás do balcão. Dei um 'oi' tímido e mergulhei nas prateleiras que eu tanto conhecia e que tanto me fascinavam. Quantas vezes sonhei que estava sozinho naquela biblioteca, ou roubando livros pra formar um belo e grande acervo particular, ou fazendo da biblioteca uma espécie de portal, a partir do qual eu poderia ir pra qualquer lugar e viver qualquer história fantástica.
Olhei, olhei, olhei e acabei escolhendo uma vez mais um livro de Francisco Marins: 'Verde era o coração da montanha'. Voltei pra casa rápido, protegendo o livro debaixo da camiseta, pois a chuva estava voltando. Guardei a bicicleta no quartinho e deitei no tapete verde da sala pra começar a leitura. E li de uma tacada só, o barulho da chuva de trilha sonora, sem medo de fazer a viagem e sem pena de vê-la terminar tão rapidamente, numa tarde.
* * *
Sim, sou um sujeito saudosista. Anos depois de ter vivido aquela (e muitas outras) tarde mística com os olhos pregados nas páginas de um livro, resolvi comprar vários títulos que havia lido na infância e adolescência e montar uma prateleira só de obras infanto-juvenis. Confesso que reli nem metade do que adquiri, mas os livros estão ali, à minha disposição, e quando a chuva e as tardes nostálgicas de certos verões solicitam, lá vou eu de novo sonhar.
A tarde da partida pra Infinita América III ocorreu num fim de abril com cara de dezembro ou janeiro. Uma chuva anacrônica insistia em molhar o chão que só queria respirar aridez. A mochila estava pronta. A pochete com passaporte, caderninho de anotações e um pouco de dinheiro também. A mesa do café da tarde estava posta, com bolo, pão e café. Meu pai estava ali, num raro dia de paz, e sentou-se à mesa para comer. Sentei-me também e pudemos falar do passado, do tempo em que ele ainda trabalhava, de certas dificuldades e facilidades que passou, de como os tempos mudaram e de como os filhos se desvencilham (ou tentam se desvencilhar) da sombra dos pais. Foi um bom café da tarde.
Emocionado e com sede de alguma aventura imaginária levei a mão até a prateleira dos infanto-juvenis e por sorte, acaso ou destino encontrei o 'Verde era o coração da montanha' ali, pedindo pra ser folheado. Tirei a mochila e a pochete de cima da cama e deitei de barriga pra cima, com dois travesseiros dobrados sustentando a cabeça. E mergulhei no sonho uma vez mais, só pra esperar com qualidade a hora da partida. A campainha tocou pra me acordar. Era Veri com seus pais lá fora a me esperar. Dali pra rodoviária, pra outro sonho, pra outra aventura. América, estamos indo te libertar!
