segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A chuvosa tarde da partida

     Não lembro em que ano foi, muito menos em que dia, mas deve ter sido no começo ou no meio de algum dezembro especialmente chuvoso. Chovia muito, sem parar, e eu estava perdido das ideias olhando as árvores encolhidas e encharcadas do pasto pela janela da sala, pensando no que faria das férias assim que a água parasse de cair. Precisava de alguma aventura nova. Andar pelo ferro-velho pra roubar cobre ou alumínio e depois vender era muito arriscado. Escalar o buraco da linha do trem já tinha perdido a graça, e meus primos não estavam mais na cidade. Sem eles não seria a mesma coisa. Acho que eu queria mesmo uma aventura imaginada, daquelas que a gente 'vive' quando lê um livro arrebatador.   

   Na primeira pausa da chuva, peguei a bicicleta no quartinho e me mandei pro SESI. Contrariando as ordens do guardinha Juvenal, prendi a bike na grade do portão da escola e entrei sorrateiramente na biblioteca. Dona Iara estava lá, na postura de sempre, um pouco atabalhoada, carimbando e escrevendo nuns papéis atrás do balcão. Dei um 'oi' tímido e mergulhei nas prateleiras que eu tanto conhecia e que tanto me fascinavam. Quantas vezes sonhei que estava sozinho naquela biblioteca, ou roubando livros pra formar um belo e grande acervo particular, ou fazendo da biblioteca uma espécie de portal, a partir do qual eu poderia ir pra qualquer lugar e viver qualquer história fantástica. 

   Olhei, olhei, olhei e acabei escolhendo uma vez mais um livro de Francisco Marins: 'Verde era o coração da montanha'. Voltei pra casa rápido, protegendo o livro debaixo da camiseta, pois a chuva estava voltando. Guardei a bicicleta no quartinho e deitei no tapete verde da sala pra começar a leitura. E li de uma tacada só, o barulho da chuva de trilha sonora, sem medo de fazer a viagem e sem pena de vê-la terminar tão rapidamente, numa tarde.

* * *

  Sim, sou um sujeito saudosista. Anos depois de ter vivido aquela (e muitas outras) tarde mística com os olhos pregados nas páginas de um livro, resolvi comprar vários títulos que havia lido na infância e adolescência e montar uma prateleira só de obras infanto-juvenis. Confesso que reli nem metade do que adquiri, mas os livros estão ali, à minha disposição, e quando a chuva e as tardes nostálgicas de certos verões solicitam, lá vou eu de novo sonhar. 

   A tarde da partida pra Infinita América III ocorreu num fim de abril com cara de dezembro ou janeiro. Uma chuva anacrônica insistia em molhar o chão que só queria respirar aridez. A mochila estava pronta. A pochete com passaporte, caderninho de anotações e um pouco de dinheiro também. A mesa do café da tarde estava posta, com bolo, pão e café. Meu pai estava ali, num raro dia de paz, e sentou-se à mesa para comer. Sentei-me também e pudemos falar do passado, do tempo em que ele ainda trabalhava, de certas dificuldades e facilidades que passou, de como os tempos mudaram e de como os filhos se desvencilham (ou tentam se desvencilhar) da sombra dos pais. Foi um bom café da tarde.

   Emocionado e com sede de alguma aventura imaginária levei a mão até a prateleira dos infanto-juvenis e por sorte, acaso ou destino encontrei o 'Verde era o coração da montanha' ali, pedindo pra ser folheado. Tirei a mochila e a pochete de cima da cama e deitei de barriga pra cima, com dois travesseiros dobrados sustentando a cabeça. E mergulhei no sonho uma vez mais, só pra esperar com qualidade a hora da partida. A campainha tocou pra me acordar. Era Veri com seus pais lá fora a me esperar. Dali pra rodoviária, pra outro sonho, pra outra aventura. América, estamos indo te libertar!



sábado, 1 de dezembro de 2012

Algo mais sobre o roteiro

   A Companhia das Letras promoveu uma espécie de entrevista a distância que permitiu aos leitores e fãs do jovem escritor Daniel Galera fazerem perguntas ao autor. Segue link pra quem se interessar: http://www.blogdacompanhia.com.br/tag/daniel-galera/. Um dos "entrevistadores" pergunta em que momento um escritor para de mexer no livro em que está trabalhando e decide que a obra está pronta e não deve mais ser mudada. Na resposta, Galera diz que para ele há dois momentos cruciais na finalização de um livro: o primeiro momento é quando ele decide que a história deve sair da imaginação e começar a ir pro papel; o segundo é quando, já estafado de mexer e remexer na obra, ele decide, um pouco motivado pelo feeling de que o livro já está bom o suficiente e um pouco motivado pelo cansaço, que já não dá mais pra mudar nada ali. Ponto final.
     Hoje, dias após assistir a dita entrevista à distância em meu sujo e empoeirado notebook, aproveitando a internet rápida de um bom hotel, penso algumas coisas sobre livros, viagens, roteiros e internet. Quando é que um viajante independente decide que determinado roteiro está pronto e não deve mais ser mudado? Quando é que um mochileiro decide que certa viagem deve ser mesmo contada via internet? O que motiva essa contação?
    São perguntas pessoais e refletir honestamente sobre algumas delas pode ser doloroso. Por ora, pensarei sobre a questão do roteiro.

  A partir de que momento do planejamento de uma viagem independente se pode considerar o roteiro pronto, não mais mexível? Como saber se esse momento realmente chegou?

    No caso dessa viagem, cujo fechamento do roteiro foi especialmente difícil, percebemos que não chegaria o momento em que sentiríamos segurança para olhar o itinerário por completo e dizer: pronto. Então, resolvemos ir por partes. O primeiro objetivo foi definir Peru e Equador. Quanto mais pesquisávamos, mais em dúvida ficávamos, porque não basta decidir ir pra cidade X, dali pra Y e depois pra Z. É necessário saber se há transporte de um lugar pro outro, em que dias da semana esse transporte está disponível, se vale a pena, de repente, ficar um dia a mais ou um dia a menos num lugar pra se adequar aos dias e horários dos ônibus, trens, etc.
    Sem internet em casa, pão duro que sou, tive que usar de locais onde há internet grátis, como parques públicos, shoppings, hotéis, etc. Destaco o Parque do Curupira, o Novo Shopping e a Praça dos Expedicionários, em Ribeirão Preto. Lembro que passei manhãs e manhãs pesquisando muitas vezes sem chegar à conclusão alguma. Mas lembro de uma manhã especial, de céu azul e vento forte em que sentei num banco da Praça dos Expedicionários, ao lado de um catador de papelão e seu cachorro selvagem e sujo, para pesquisar. Decidi que aquele era o dia. E foi. Vendo fotos de Trujillo (Peru) e lendo sobre o local não tive dúvidas de que ali deveria ser a segunda parada da viagem, depois de Lima. Havia transporte fácil de uma cidade a outra, em vários dias da semana. Consegui fechar também a passagem do Peru pro Equador (não havia ônibus todos os dias de um país para outro, mas o dia em que havia batia com o dia que precisávamos). Fechar a rota pelo Equador foi fácil. E foi fácil também concluir que a Veri ia amar Cuenca. E ela realmente amou.
     O sol já ia alto e o trabalho me chamava, mas fiquei na praça até o limite do horário e fechei também toda nossa passagem pela Colômbia. Pesquisar sobre Medellín foi especial. Trocando e-mails com a Veri, sonhamos juntos com almoços no Cerro Nutibara, passeios no Metrocable, caminhadas pela parte amuralhada de Cartagena, cafés em lugares especiais, conversas francas e entusiasmadas com taxistas e pedestres...
      Nesse dia tive aquela sensação de 'agora vai', o feeling de que pelo menos até aquela parte o roteiro estava pronto. A sensação de cansaço veio semanas depois, quando não conseguíamos de jeito nenhum ter certeza sobre os horários de transporte na Venezuela. Foi quando olhamos um pro outro e dissemos: "vai assim mesmo; se der alguma zica a gente improvisa, afinal, essa é ou não é uma viagem de aventura?"